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Autoria: Galahad

Luzes em todos os cantos, o mundo roda em uma ciranda maluca, como se a existência fosse um fogo enroscado ao fim de um barbante, e este barbante gira em alta velocidade, contorcendo-se e alongando-se até chegar a Alma Mundi.

A dor e o prazer tomam lugar num templo cuja batalha é atemporal, e em seus punhos estão lâminas capazes de cortar a alma do mais fiel devoto, e de partir ao meio o mais ávido escarnecedor.

Batalha continua...

Os campos verdes não estão tão verdes, o olhar vira para o lado e a essência é tudo que nos resta, os lagos de outrora estão agora cinzas e seus habitantes parecem querer se lançar aos céus, mudando o curso natural da vida. Mas, que vida?

No meio do turbilhão de pensamentos, um cachorro cai no lago cinza, e começa a nadar como se estivesse morrendo, chegando a se engasgar e gorfar, parece uma criança.

Seu marido morrera a tão pouco tempo, e ela o amava tanto, tanto... Lágrimas lhe escorriam do rosto agora contorcido em uma tristeza que não sabia se era real ou imaginária, física ou espiritual... mas o que é o espírito?

Gritos, gritos e mais gritos e as lágrimas ainda lhe escorriam pela face. O círculo de pedras estava tão vivo em suas memórias, o corpo de seu amado brilhando ao sol e ela alegre colhendo flores para as fogueiras de maio.

Um estrondo! Seria esse o barulho da abertura dos portões do inferno? Ela sentia as bestas vermelhas vindo ao seu encontro... Calor... frio... elas estavam entrando dentro dela, ou estariam saindo?

Os castelos ainda estavam em sua memória, e seu amado havia saido para lutar nas guerras passadas... e deu sua vida por isso... assim como teria dado sua vida a ela se ela precisasse... e ela agora precisa...

Mas alguns segredos se demora uma vida inteira para descobrir, para somente na outra compartilhá-los...

Mais uma lágrima corria por seu rosto. Como é mesmo que ele chamava isso? Não eram Diamantes?

Preciosas sim, mas como o vidro que se quebra nas mãos de um tolo, pois pior que jogar as pérolas aos porcos é dar o seu segredo maior para aquele que não merece.

Mais um grito.

O cachorro estava se afogando, ele não conseguiria sair dali sozinho. Deuses! Por que ele tinha de ter entrado ali?

Estava escuro, sombrio e frio. Nada que se fizesse poderia fazer mudar a realidade, e o tempo não existia.

A dor vencia o combate à medida que o prazer mostrava claros sinais de cansaço. Seu rosto estava suado.

Pássaros? Seriam esses sons o de pássaros cantando ao meu lado? E aquilo? Seria um falcão?

Flores verdejantes nasciam e morriam ao seu lado, sem que se desse conta disso, pois, sabia ela que o mundo não existia e que logo estaria ao lado de seu amado.

As luzes foram ficando mais fracas à medida que seus olhos pareciam explodir de suas órbitas, e no lugar de seus diamantes escorriam agora cascatas de rubis... sim... esse era outro nome favorito dele...

Ela não podia mais enxergar e virou-se para o lago. O círculo de pedras parecia destruído. Onde estavam as mesas? E a festa? O lago, que já fora mais puro que o cristal e mais belo que chegada da primavera, agora parecia sem vida... E seus habitantes queriam lançar-se ao ar...

As bestas continuavam a lhe dilacerar a carne de forma tão brutal que sentia as mordidas dentro de seu corpo perfazendo caminhos que nem mesmo seu sangue havia antes cogitado percorrer.

Olhou para o lago mais uma vez... o cachorro estava se afogando e o lago agora ficava vermelho... de uma tonalidade tão viva que assustava... Viu que ia sucumbir, pensou em seu amado e gritou...

GRITOU!

Com seu último alento...

Uma última lagrima caiu de seu rosto...

Olhou para o lago e o cachorro estava salvo na outra margem... um enorme cervo ao seu lado...

E em seus braços estava o filho do amor...

Sua criança nascera.

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